segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

TEATRO: Barbara Heliodora deixa a função de crítica de teatro em meio a elogios a sucessor


Macksen Luiz, que assinou resenhas teatrais para as revistas ‘Visão’, ‘Manchete’ e ‘Isto É’, vai ocupar o cargo no GLOBO

Algumas despedidas podem ser dolorosas, carregar mágoas e ressentimentos. Mas Barbara Heliodora fala de sua aposentadoria como crítica de teatro, atividade que exerce há mais de 50 anos — os últimos 23 deles nas páginas do GLOBO — com um certo alívio.

— Escrevo sobre peças desde 1957. É muito tempo de dedicação. Acho que já chega — diz Barbara, sentada na sala de sua casa, no Largo do Boticário, cercada de livros e retratos que denunciam sua paixão pelos palcos. — Estou com 90 anos. Já não tenho mais fôlego para ir ao teatro várias vezes por semana e escrever sobre o que assisto. Ficou um pouco pesado para mim.

Na cadeira a seu lado está Macksen Luiz, que assinou resenhas teatrais para as revistas “Visão”, “Manchete” e “Isto É", antes de se tornar crítico do “Jornal do Brasil”, entre 1982 e 2010. A partir de agora, ele assume a função até então exercida por Barbara no GLOBO, a de avaliar semanalmente a produção teatral carioca — e, por extensão, a brasileira.

— Sempre achei o trabalho do Macksen muito interessante. É um crítico que respeito muito. O jornal sai lucrando, foi uma bela escolha — elogia a senhora de cabelos acinzentados. — Posso me gabar de meus sucessores. Quando saí do “Jornal do Brasil”, nos anos 1960, entrou Yan Michalski (1932-1990). Agora, saio do GLOBO e entra Macksen. Tenho orgulho de ter sucessores de qualidade. 

Macksen, que continuará alimentando o seu blog sobre a cena teatral (macksenluiz.blogspot.com.br), lamenta que Barbara tenha decidido se afastar da crítica semanal.
— Sempre encontrei Barbara em estreias. Mesmo em momentos em que a saúde estava um tanto frágil, ela acompanhava a temporada inteira. O teatro vai perder esse caráter de espectadora contumaz dela — retribui o crítico.


Os dois passaram as últimas décadas encontrando-se em espetáculos pela cidade — das experimentações de José Celso Martinez Corrêa a revisitações de clássicos de William Shakespeare, o favorito de Barbara e que inspirou os seus livros “A expressão dramática do homem político em Shakespeare” (Paz e Terra) e “Falando de Shakespeare” (Perspectiva). Nunca alimentaram qualquer tipo de rivalidade, mesmo em publicações concorrentes.

— Nós nos respeitávamos muito. Desenvolvíamos trabalhos paralelos, mas, eventualmente, chegávamos a trocar opiniões sobre o que acabáramos de assistir — lembra Macksen. — Talvez tenhamos linhas de trabalho diferentes, mas o rigor analítico é comum a ambos.

— Mas sempre trocamos impressões de maneira discreta, porque cada um tinha um compromisso com o seu veículo — observa Barbara. — Às vezes, o resultado do que víamos era tão óbvio, para o mal, que não dava para não dizer um para o outro: “Pôxa, que horror!” (risos).

Conhecida por suas análises afiadas, que inspiraram reações iradas de diversos encenadores, Barbara ganhou alguns desafetos ao longo das últimas décadas. Estes não ficarão totalmente em paz, já que, como a crítica explica, sua aposentadoria é parcial: ela continuará fazendo eventuais contribuições para o jornal, mas sem o compromisso da crítica diária.


Novos projetos

Professora de história do teatro por mais de duas décadas, tradutora de 35 das 37 peças escritas por Shakespeare, ela dedicará o tempo extra a uma de suas paixões paralelas: a tradução. Sua maior ambição na área, no momento, é debruçar-se sobre “Le Cid”, do dramaturgo francês Pierre Corneille (1606-1684), um de seus autores preferidos.

— Os autores ingleses, mesmo os que escrevem em versos, são facílimos, se comparados aos franceses. Já traduzi “O misantropo”, do Molière, construído com versos alexandrinos rimados, uma dificuldade só. Mas a peça do Corneille é uma maravilha! — entusiasma-se.

Ex-atriz que desistiu da atuação para dedicar-se aos estudos de teatro, Barbara prepara-se também para voltar a dirigir uma peça, mas na função de consultora. Alegando que “não tem mais saúde para subir e descer de um palco”, convidou Bruce Gomlevsky para auxiliá-la na encenação de “Timão de Atenas”, baseada na montagem feita pelo National Theatre de Londres em 2012.

Acostumada a receber elogios de leitores agradecendo por seus textos, que serviram de orientação para o que deve ou não ser visto, Barbara não vê a hora de assumir o seu papel de mera espectadora.

— A frequência com que irei ao teatro vai diminuir. Agora, vou esperar o Macksen escrever para escolher o que ver. Desta vez quem vai se beneficiar da crítica jornalística sou eu! (risos)


Fonte: O Globo


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